Blog do Cardoso

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Jun
27

Lazer de paulista é passear no aeroporto

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Curioso é que a gente sempre falava isso, mesmo quando a maior aventura era justamente sair do colégio e andar alguns quilômetros (ok, um ou dois) até o Galeão.
Nos tempos do Colégio Newton Braga, quando éramos jovens, selvagens e livres era pra lá de divertido dispensar o ônibus e ir andando pra casa. Nos dias especiais, invertíamos a direção, e seguíamos pro Aeroporto Internacional.

Antes dessa era antiséptica isolada digna de um filme de ficção científica vagabundo era possível debruçar na varanda do terceiro andar, acenar para os pilotos (eles respondiam!) e respirar o inconfundível cheiro de gasolina de aviação, que na época ainda chamávamos de querosene.

Nem quero imaginar o cheiro dos aviões do futuro, rodando na base do biodiesel.

Um passeio especialmente bom era nas quartas, quando o Concorde chegava. (ele também vinha aos domingos, mas não era dia de aula) Ele era lindo, ver aquele bicho de perto, a menos de 10 metros de distância era algo impressionante na mente de um adolescente.

Eu me lembro com especial carinho do Rock in Rio, quando passamos TODAS as tardes no aeroporto, acompanhando a chegada dos roqueiros. Detalhe: Ninguém da minha turma era especialmente fã, o importante era a farra. Ficamos amigos dos seguranças, afinal estávamos lá todo dia. Lembro que na chegada de alguém (acho que da Nina Haggen – sim, a roqueira alemã que criou  o haggen Däsz)  me enfurnei no meio dos VVVIPS (Very Very VIPS) até chamar a atenção de um dos seguranças. Por acaso o chefe deles. Só vi o cotovelo subindo. Já me preparei pra próxima frase que viria a dizer ser “Jesus, você não morre mais!” quando ele olha pra trás e diz “ah, porra, é você. Vem, fica mais aqui pro lado que dá pra ver melhor”.

Outro dia chegamos pra um grupo de cabeludos vestidos com jaquetas de couro. “excuse me. Are you Iron Maiden?”

Nossa idéia era que o Iron Maiden seria alternativo o suficiente pra vir sem seguranças, comitiva, etc. OK, éramos crianças. Naquele tempo acreditaríamos até em Software Livre.

No último dia de Rock in Rio (ou de chegada de astros) fui pedir autógrafo do Al Jarreau. Sim, éramos caçadores de autógrafos, veja você. Na correira ele usou o passaporte para apoiar o papel e assinar, mas me entregou o pacote todo. Quando vi eu estava com o passaporte do homem nas mãos.

Saí correndo atrás do carro. “Stop, stop, the book is on the table” ou algo assim. Acho que ele percebeu, pois mandou parar o carro. Entreguei o passaporte com um “sorry” mas o sujeito estava tão aliviado por não ter sido malocado por um pivete de 3o Mundo que era só sorrisos. “thanks, thanks, buddy!”
No final me senti muito melhor fazendo aquela pequena boa ação, do que se tivesse ficado com o passaporte do cara e vendido como memorabilia, coisa super-comum hoje em dia.

De outra feita, resolvemos visitar a Torre. Nosso colégio era, tecnicamente, da Aeronáutica. O Colégio Brigadeiro Newton Braga era civil, mas pago pelo Ministério, sua posição não me parecia muito confortável mas lá estávamos. A carteirinha de estudante vinha com um belo brasão da Força Aérea, e nos anos 80 isso ainda valia alguma coisa.

Batemos literalmente na porta da Torre de Controle. “Oi, somos do Newton Braga, viemos visitar a Torre.” Isso mostrando a carteirinha. E de uniforme.

A Carteirada (de estudante) funcionou.  Acabamos ganhando um tour que nem repórter da Globo no auge da crise aérea ganhou.

Resultado: Uma decepção. É, verdade. A imagem que tínhamos de controlador de vôo era aquele sujeito super-tenso, evitando acidentes o tempo todo, suando.

Encontramos uma sala com várias telas de radar, algumas vazias, gente batendo papo, olhando pra tela, girando a cadeira, conversando com os outros.

“Cara, minha mulher fez quibe, quem quer?”  e rola o tupperware de mão em mão. Admito, a mulher do cara sabia cozinhar. O quibe estava ótimo.

Eu vendo na tela dois aviões chegando perto, perto… aí um dos controladores. “merda, espera um pouco.” Pega o fone, fala alguma coisa, deita o fone  e continua no bate-papo.

Vimos um trabalho normal, envolvendo gente e tecnologia, mas nada daqueles super-homens que os filmes passavam como a realidade. Bem, não se pode ter tudo.

Mesmo assim eu queria trabalhar ali.

Aeroportos têm grande importância em minha vida, passei por momentos cinematográficos que renderão excelentes capítulos de minha autobiografia não-autorizada. Digamos que do ato mais impetuoso de minha vida à clássica cena do beijo de despedida com o locutor chamando “senhor Carlos Cardoso – embarque imediato, senhor Carlos Cardoso, apresente-se ao embarque” com o avião já com as portas fechando em passei.

Só não tirei fotos de dentro de avião caindo, mas sempre ando com minha máquina justamente pra isso ;)

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  1. Junior em 27/06/2007 - 13:16 escreveu:

    Muito legal o texto! Adorei!
    Abraço!



  2. Bender em 27/06/2007 - 13:36 escreveu:

    Já me chamaram também. Umas quatro vezes, acho.

    Maldito avião que decidiu decolar 10min antes da hora…



  3. Enio Luiz Vedovello em 27/06/2007 - 13:43 escreveu:

    O texto está muito legal, Cardoso. Já o título, com o preço do estacionamento dos aeroportos, sem chance nenhuma de ser realidade (admito que há muitos anos até foi). A gente chega no aeroporto torcendo para o pouso não atrasar, que é para só pagar uma horinha. Isso quando não fica rodando pela região (tá, Congonhas, Cumbica nem pensar em fazer isto) esperando quem chegou ligar no celular para a gente entrar no aeroporto e pegar, sem ter de estacionar…



  4. Marcelo em 27/06/2007 - 15:13 escreveu:

    Tá explicado….

    “O quibe estava ótimo”
    Eu sempre quis saber qual era a bronca com o (K)quibe.. acho que foi porquê não mandou flores, nem fax, nem telefonou depois….
    Grande abraço



  5. Fabiane em 27/06/2007 - 16:03 escreveu:

    quando éramos jovens, selvagens e livres

    Essa frase faz referência à música “Heaven”, do Bryan Adams?



  6. Cardoso em 27/06/2007 - 16:10 escreveu:

    Na mosca, Fabi!



  7. Luis Santos em 27/06/2007 - 17:12 escreveu:

    Bons Tempos.

    Não voltam mais.

    Aloha!



  8. Maysa em 27/06/2007 - 17:59 escreveu:

    Ótimo texto

    Hoje, voce pode ir passear no aeroporto, deitar no chão e esperar por horas e horas seu avião decolar.

    Maysa



  9. Eric Souza em 27/06/2007 - 18:50 escreveu:

    É, quando era guri meus pais costumavam me levar pra passear no aeroporto daqui de Salvador. Isso quando ele AINDA era chamado Aeroporto 2 de Julho, que estupida e retardadamente foi renomeado para “Aeroporto Internacional Deputado Luís Eduardo Magalhães”(percebem, o único “upgrade” no nome foi que ele se tornou internacional, mas não tem a mínima noção usar o nome do filho do ACM pro aeroporto. Nada contra o cara, mas…que diabo esse cidadão fez além de ser filho do velho e ter morrido cedo? -_-’ ).

    “Saí correndo atrás do carro. “Stop, stop, the book is on the table” ou algo assim.”
    HUAHAHAHAHA, excelente demonstração de como se fala em inglês com um pop-star. =D



  10. Anselmo Braga em 27/06/2007 - 18:57 escreveu:

    Os aviões comerciais usam Querosene de aviação e não gasolina como alguns dizem. E este querosene tecnicamente é o mesmo usado nas lamparinas.
    Boa viajem…



  11. danilo em 27/06/2007 - 19:56 escreveu:

    Acreditaria até em software livre??
    cardoso querendo atrair os fanáticos, pra ganhar mais com seu adsense!!!

    :p



  12. Rafael Netto em 28/06/2007 - 00:54 escreveu:

    “inconfundível cheiro de gasolina de aviação, que na época ainda chamávamos de querosene.”

    Jatos e turboélices usam querosene, aviões pequenos usam gasolina de aviação. Ou tem alguma ironia nessa frase…

    sobre o comentário aí de cima, diz uma conhecida piada que o L.E.M. fez história porque foi o primeiro baiano a morrer de stress…..



  13. Rodrigo Menezes em 28/06/2007 - 08:07 escreveu:

    Ótimo texto!



  14. Victorpencak em 29/06/2007 - 12:53 escreveu:

    haha gostei do texto.. tsc tsc.. tu tbm comeu o quibe do cara eh? haha :P



  15. Bruno em 30/06/2007 - 02:55 escreveu:

    Muito bom este post! Certa vez no foyer do aeroporto de Confins (é um corredor enorme, e na época, quase deserto) eu e uns amigos fizemos uma corrida de ‘bigas’, estilo Ben Hur (em cada time, um empurrava, e o outro ficava no carrinho chicoteando o adversário com um moleton).

    Não tente isto em Heathrow, porém.



  16. Alice em 01/07/2007 - 12:42 escreveu:

    Gostei do texto, pensei que eu fosse a única pessoa que tinha nostalgia com aeroporto. Quando eu era criança todo sábado meu pai levava eu e meu irmão no aeroporto de Congonhas, e eu comprava revistas numa banca legal que tinha lá (acho que ainda tem), e o clima era muito bom. Só percebemos que situações comuns, simples são maravilhosas depois que elas passam. Conhece a Emafa? Conheci ontém no blog do meninodolho (www.meninodolho.blogspot.com), ela é uma criação nossa, brasileira. Vale a pena ver!
    Beiji
    Alice



  17. Ronaldo Rocha em 16/11/2008 - 03:07 escreveu:

    Hehe…estudei no Newton tb, mas em 1985 eu estava no CEFET. Fiquei aqui viajando nas lembranças…voltar a pé pra casa só de onda (e eu morava no cacuia)…prazer indescritível só superado pela alegria de andar até o ponto de ônibus da EAPAC e conseguir uma carona no “Papa-Fila”, o ônibus gigante dos funcionários da aeronáutica. Parabéns pelo blog.