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Calma, eu não comi cocô nem estou querendo passar um tempo na detenção da Polícia Federal. A discussão é séria.

Vendo os arquivos de um popular fórum da Internet, descobri um negócio meio assustador. Aos nove anos de idade Angélica fez fotos para um livro infantil do fotógrafo Sergio Duarte, baseado no filme A Lagoa Azul. Nas fotos Angélica está nua em pêlo, ou melhor, sem pêlo, dada sua tenra idade.

O livro não foi publicado, por falta de patrocínio, e o projeto ficou congelado até que Angélica se tornou conhecida nacionalmente. A existência das fotos (e do próprio projeto) vazou para a imprensa, e logo surgiram os boatos de que seriam “fotos eróticas”. Tentando reverter os boatos, o autor autorizou a revista Veja a publicar as fotos, em sua edição de 19/10/1994.

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A justificativa da não-impropriedade das fotos era que todo mundo já viu meninas peladas na praia, e não é tratado como imoral, que forma do contexto erótico-sexual, o nu infantil é algo aceitável. No começo dos anos 80 era, tanto que os pais da Angélica, que sempre pareceram bons pais, aprovaram a proposta. Hoje eu duvido que a Angélica aceite uma proposta semelhante, envolvendo seus filhos.

Como algo perfeitamente aceitável em um momento se torna imoral de uma hora para outra?

Bem, o padrão da moralidade varia de acordo com o tempo. No século passado cobríamos as pernas das mesas, eram consideradas obscenas. Ou melhor, remeteriam á s pernas das damas, essas sim obscenas. Ver a esposa nua era imoral, mulher nua só se fosse uma prostituta. Hoje se sua mulher posa pelada para a Playboy, você é visto como um cara de sorte. Pegador, hein?

O que me assusta é que mesmo em muito pouco tempo, há uma mudança muito grande.

Éramos excessivamente tarados, nos anos 80, ou somos excessivamente moralistas hoje em dia? Eu lembro que na Playboy de dezembro de 1987 Luciana Vendramini posou, vestida de paquita, aos 16 anos. O mundo não acabou por causa disso. Outras modelos como a garota de Ipanema Verônica Rodrigues fez suas fotos aos 15 anos, e o recorde foi o filme A Menina do Lado, com a Flávia Monteiro fazendo cenas de sexo total radiante aos 14 anos. OK, esse último foi tão desnecessário que até o Reginaldo Farias aparece constrangido, contracenando com ela.

Hoje em dia seria impensável uma menina de quinze anos posar nua (não que, por minuto que seja, passe por minha cabeça acreditar na virtude e inocência da Verônica Rodrigues, o “menina” é puramente cronológico) e se o Louis Malle fosse tentar fazer uma versão de Pretty Baby hoje em dia seria perseguido por camponeses com tochas.

O que eu acho justo, o filme era uma bosta.

carloscardoso-anjost.gifEm 1991 o livro Anjos Proibidos, de Fabio Cabral, foi proibido. Trazia fotos de meninas semi-nuas em poses sensuais. As idades variam entre 17 e 10! Anos. (não é dez fatorial, é espanto mesmo). Assentada a polêmica, uma rápida pesquisa na Internet revela que o livro não só está sendo vendido, como foi editado no exterior. E custa caro, US$159,90 se for enviado para os Estados Unidos. Muita vontade de ver garotinhas peladas.

O Fabio Cabral deveria ser perseguido, também por camponeses com tochas? Ao contrário das fotos da Angélica, o livro tinha um conteúdo erótico intencional. Dizem que a arte boa é a arte que choca, que faz pensar. Isso já foi bem discutido em um episódio de The L Word, mas eu segui o conselho de House e passei a assistir com o volume zerado, então não posso reproduzir a conclusão a que chegaram.

Voltando ao Lagoa Azul, os peitinhos da Brooke Shields não comprometeram a qualidade artística (inexistente) do filme, nem causaram uma onda de tarados correndo atrás de garotinhas. Inclusive o índice de ataques a meninas em praias de nudismo é ZERO, e a proporção de pedófilos praticantes do naturismo não é maior do que em qualquer outro ramo. Talvez ver as tias e avós peladas seja um preço alto demais para desfrutar da visão das ninfetinhas.

Alguns dizem que o conteúdo artístico desse tipo de foto é questionável. Aceito, mas lembro que o conteúdo artístico de qualquer obra é questionável. Se não pode ser questionado, se traz um dogma em si, é religião, ou Software Livre. Nenhum deles tem lugar junto a uma mente libertária como a minha.

Lembrando, ainda, que não é de hoje que surgem essas polêmicas. Bem antes da Angélica correr pelada pela praia, Lewis Carrol, o santo-padroeiro dos ninfeteiros tinha como hobby fotografar suas meninas, em poses altamente questionáveis, como a Alice, abaixo. Hoje suas fotos imorais são artísticas e inocentes. Amanhã, quem sabe? Podem voltar a ser obscenas.

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Ao julgar esse tipo de obra sob o seu ponto de vista moral, o leitor esquece que há outros. Principalmente, jogam a carga de preconceito que carregam, em cima do trabalho. As alegaões costumam ser que esse tipo de imagem iria “estimular” pessoas a virarem pedófilos. Desculpe, gente, mas se folhear um livro com imagens artísticas de meninas é o suficiente para virar de ponta-cabeça toda a sua cadeia de valores, então você tem problemas, problemas sérios.

A moralidade vigente mudou tanto e tão rápido que a Veja, que não é exatamente a Hustler ou alguma revista japonesa underground publicou a foto da Angélica, em 1994, e não foi – você sabe, camponeses com tochas – já eu, na Internet, em 2007, não tenho coragem sequer de reproduzir a reportagem da revista sem censurar a imagem da menina, pois sei que isso poderia me colocar em encrencas.

Isso é evolução? Se nossas crianças precisam ser tão protegidas como o fazemos hoje em dia, como a sociedade não se esfacelou, trinta anos atrás quando EU era criança? Eu sou contra qualquer tipo de abuso envolvendo crianças, assisto todo dia Lei e Ordem – SVU, mas será que a nossa sociedade não ficou moralista E histérica demais em muito pouco tempo?

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