Blog do Cardoso

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Mar
05

Seu Gregório e o Juiz Porreta

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O Exmo. Magnífico Porretíssimo Gerivaldo Alves Neiva é Juiz de Direito na Bahia mas deveria ser alçado a Imperador. Vejam que sentença magnífica contra a Siemens ele escreveu. É delicioso, prova de que nem textos legais conseguem ser chatos, se escritos com gusto.

[créditos: O texto chegou a mim através do falecido Paulo G. Muller, tendo sido originalmente enviado pela Flávia, a melhor parte do Cobra.]

 

Processo Número: 0737/05

Quem pede: José de Gregório Pinto
Contra quem: Lojas Insinuante Ltda, Siemens Indústria
Eletrônica S.A e Starcell

Ementa:
UTILIZAÇÃO ADEQUADA DE APARELHO CELULAR. DEFEITO.
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DO FABRICANTE E DO FORNECEDOR.

Sentença:

Vou direto ao assunto. O marceneiro José de Gregório Pinto, certamente pensando em facilitar o contato com sua clientela, rendeu-se à propaganda da Loja Insinuante de Coité e comprou um telefone celular, em 19 de abril de 2005, por suados cento e setenta e quatro reais. Leigo no assunto, é certo que não fez opção por fabricante. Escolheu pelo mais barato ou, quem sabe até, pelo mais bonitinho: o tal Siemens A52. Uma beleza!

Com certeza foi difícil domar os dedos grossos e calejados de marceneiro com a sensibilidade e recursos do seu Siemens A52, mas
o certo é que utilizou o aparelhinho até o mês de junho do corrente ano e, possivelmente, contratou muitos serviços. Uma maravilha!

Para sua surpresa, diferente das boas ferramentas que utiliza em seu ofício, em 21 de junho, o aparelho deixou de funcionar. Que tristeza: seu novo instrumento de trabalho só durou dois meses. E olha que foi adquirido legalmente nas Lojas Insinuante e fabricado pela poderosa Siemens….. Não é coisa de segunda-mão, não!

Consertado, dias depois não prestou mais… Não se faz mais conserto como antigamente!

Primeiro tentou fazer um acordo, mas não quiseram os contrários, pedindo que o caso fosse ao Juiz de Direito.

Caixinha de papelão na mão, indicando que se tratava de um telefone celular, entrou seu Gregório na sala de audiência e apresentou o aparelho ao Juiz: novinho, novinho e não funciona. De fato, o Juiz observou o aparelho e viu que não tinha um arranhão.

Seu José Gregório, marceneiro que é, fabrica e conserta de tudo que é móvel. A Starcell, assistência técnica especializada e indicada pela Insinuante, para surpresa sua, respondeu que o caso não era com ela e que se tratava de “placa oxidada na região do teclado, próximo ao conector de carga e microprocessador” . Seu Gregório: o que é isto? Quem garante? O próprio que diz o defeito, diz que não tem conserto….

Para aumentar sua angústia, a Siemens disse que seu caso não tinha solução neste Juizado por motivo da “incompetência material absoluta do Juizado Especial Cível – Necessidade de prova técnica.” Seu Gregório: o que é isto? Ou o telefone funciona ou não funciona! Basta apertar o botão de ligar. Não acendeu, não funciona. Prá que prova técnica melhor?

Disse mais a Siemens: “o vício causado por oxidação decorre do mau uso do produto”. Seu Gregório: ora, o telefone é novinho e foi usado apenas para falar. Para outros usos, tenho outras ferramentas. Como pode um telefone comprado na Insinuante apresentar defeito sem solução depois de dois meses de uso? Certamente não foi usado material de primeira. Um artesão sabe bem disso.

O que também não pode entender um marceneiro é como pode a Siemens contratar um escritório de advocacia de São Paulo, por pouco dinheiro não foi, para dizer ao Juiz do Juizado de Coité, no interior da Bahia, que não vai pagar um telefone que custou cento e setenta e quatro reais? É, quem pode, pode! O advogado gastou dez folhas de papel de boa qualidade para que o Juiz dissesse que o caso não era do Juizado ou que a culpa não era de seu cliente! Botando tudo na conta, com certeza gastou muito mais que cento e setenta e quatro para dizer que não pagava cento e setenta e quatro reais! Que absurdo!

A loja Insinuante, uma das maiores e mais famosas da Bahia, também apresentou escrito de advogado, gastando sete folhas de papel, dizendo que o caso não era com ela por motivo de “legitimatio ad causam”, também por motivo do “vício redibitório e da ultrapassagem do lapso temporal de 30 dias” e que o pobre do seu Gregório não fez prova e então “allegatio et non probatio quasi non allegatio”.

E agora seu Gregório? Doutor Juiz, disse Seu Gregório, a minha prova é o telefone que passo às suas mãos! Comprei, paguei, usei poucos dias, está novinho e não funciona mais! Pode ligar o aparelho que não acende nada! Aliás, Doutor, não quero mais saber de telefone celular, quero apenas meu dinheiro de volta e pronto!

Diz a Lei que no Juizado não precisa advogado para causas como esta. Não entende seu Gregório porque tanta confusão e tanto palavreado difícil por causa de um celular de cento e setenta e quatro reais, se às vezes a própria Insinuante faz propaganda do tipo: “leve dois e pague um!” Não se importou muito seu Gregório com a situação: um marceneiro não dá valor ao que não entende! Se não teve solução na amizade, Justiça é para isso mesmo!

Está certo Seu Gregório: O Juizado Especial Cível serve exatamente para resolver problemas como o seu. Não é o caso de prova técnica: o telefone foi apresentado ainda na caixa, sem um pequeno arranhão e não funciona. Isto é o bastante! Também não pode dizer que Seu Gregório não tomou a providência correta, pois procurou a loja e encaminhou o telefone à assistência técnica. Alegou e provou!

Além de tudo, não fizeram prova de que o telefone funciona ou de que Seu Gregório tivesse usado o aparelho como ferramenta de sua marcenaria. Se é feito para falar, tem que falar! Pois é Seu Gregório, o senhor tem razão e a Justiça vai mandar, como de fato está mandando, a Loja Insinuante lhe devolver o dinheiro com juros legais e correção monetária, pois não cumpriu com sua obrigação de bom
vendedor.

Também, Seu Gregório, para que o Senhor não se desanime com as facilidades dos tempos modernos, continue falando com seus
clientes e porque sofreu tantos dissabores com seu celular, a Justiça vai mandar, como de fato está mandando, que a fábrica Siemens lhe entregue, no prazo de 10 dias, outro aparelho igualzinho ao seu. Novo e funcionando! Se não cumprirem com a ordem do Juiz, vão pagar uma multa de cem reais por dia!

Por fim, Seu Gregório, a Justiça vai dizer à assistência técnica, como de fato está dizendo, que seu papel é consertar com competência os aparelhos que apresentarem defeito e que, por enquanto, não lhe deve nada.

À Justiça ninguém vai pagar nada. Sua obrigação é fazer Justiça!

A Secretaria vai mandar uma cópia para todos.

Como não temos Jornal próprio para publicar, mande pelo correio ou por Oficial de Justiça.

Se alguém não ficou satisfeito e quiser recorrer, fique ciente que agora a Justiça vai cobrar.

Depois de tudo cumprido, pode a Secretaria guardar bem guardado o processo!

Por último, Seu Gregório, os Doutores advogados vão dizer que o Juiz decidiu “extra petita”, quer dizer, mais do que o Senhor pediu e também que a decisão não preenche os requisitos legais. Não se incomode. Na verdade, para ser mais justa, deveria também condenar na indenização pelo dano moral, quer dizer, a vergonha que o senhor sentiu, e no lucro cessante, quer dizer, pagar o que o Senhor deixou de ganhar.

No mais, é uma sentença para ser lida e entendida por um marceneiro.

Conceição do Coité, Bahia, 21 de setembro de 2005
Gerivaldo Alves Neiva, Juiz de Direito

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  1. Bruno em 05/03/2007 - 09:43 escreveu:

    Como diria o carinha do Rock Gol, essa foi uma sentença “totalmente excelente”.



  2. Gustavo em 05/03/2007 - 10:13 escreveu:

    Fica claro que, apesar dos pesares, ainda podemos levar um pouco de fé na justiça brasileira. Que ainda que esse tipo de noticia não apareça na “grande mídia”, a justiça ainda pode existir para os menos privilegiados.
    Palmas para o Sr. Gerivaldo Alves Neiva!!



  3. Bender em 05/03/2007 - 10:28 escreveu:

    A Siemens e a Assitência estão certas. Acham que o celular caiu na água.



  4. sturm em 05/03/2007 - 10:44 escreveu:

    queria um juiz desses aki na minha cidade. ia ser tãaaaaooo legal…



  5. Marcelo Fernandes em 05/03/2007 - 13:02 escreveu:

    Quem dera fosse um desses a julgar os mensaleiros….



  6. Sigil em 05/03/2007 - 14:06 escreveu:

    Huhehehehe, e num é que sai coisa boa daqui da Bahia mesmo? Me lembrou de um caso que meu tio tava contando por aqui ontem(coincidência, não?) de um amigo dele que tirou R$ 60,000(!!!) do McDonalds por uma ‘cobrança de má fé’ de um cheque dele que foi roubado(e devidamente cancelado). A McDonalds insistiu que a conta fosse paga, ele não quis pagar e o saldo pós-processo foi a supra citada quantia na conta do cardiologista.
    Da vontade de ser roubado e tentar faturar uma dessas não dá?



  7. Tiagotb em 05/03/2007 - 14:14 escreveu:

    E olha que do jeito que são, os advogados podem pedir a anulação da sentença por linguagem inapropriada… :P



  8. Irmão Fabiano em 05/03/2007 - 15:17 escreveu:

    Como advogado, não nego que foi uma das melhores sentenças que já li.
    Excelente.



  9. [pH] em 05/03/2007 - 15:17 escreveu:

    podiam ser todos assim.





  10. A bruxa ta solta hoje! « Ressoando em 05/03/2007 - 16:27 escreveu:

    [...] Não posso deixar de comentar, a bruxa ta solta mesmo. Desde sábado que estou tendo dificuldade no acesso a alguns sites e blogs. O MeioBit ficou em manutenção por algum tempo, mas até que foi rápido. Ontem em especial o BlogBlogs simplesmente não quis aceitar nenhuma imagem que usei como avatar. De tanto tentar mandar fotos com tamanho/dimensões do tipo 1-3KB/80×80-90×90, desisti e tentei zoar mandando uma foto bmp de uns 3MB de mais de 1000×1000 que não me pergunte porque ainda não converti em jpg ou png, sou chantageado com relação a isso. Hoje já são sete serviços que pelo menos para mim estão dando constantes mensagens de erro. Começou pelo próprio WordPress que quando tentei acessar demorou coisa de TRÊS minutos até dar um erro culpando um coitado de um Matt que eu adimito não fazer a ,ínima idéia de quem seja, embora acredito que deva ser alguém da ‘Comissão Interna de Funcionamento Descente do WordPress’. Desistindo de tentar, fui ler alguns blogs pra matar o tempo, passei pelo Contraditorium e pelo Blog do Cardoso lendo o excelentíssimo post sobre meu conterrâneo Seu Gregório e o Juiz Porreta. Obviamente comentei e agora pouco tentei voltar e ler alguns comentários e o servidor me volta uma mensagem que “a conta excedeu o limite de PHP”, mensagem da qual inclusive ele havia perguntado se alguém havia recebido em um post mais antigo. Até mesmo o IDG Now! eu consegui pegar em manutenção hoje. Será alguma praga? Os xiitas que odeiam o Cardoso e se lamentaram pela sua volta segura de suas férias passaram a fazer seus atentados contra minha humilde e desconhecida pessoa? É um caso a se considerar imagino…Por enquanto vou entender apenas como má sorte momentânea, espero que realmente passe e se normalize. [...]



  11. Igor em 05/03/2007 - 16:49 escreveu:

    Se todos os políticos e juízes do Brasil tivessem a mesma atitude com o povo o Brasil não tava na merda…



  12. NickNolte em 05/03/2007 - 17:18 escreveu:

    Fantástico, tanto o texto quanto a atitude do juiz.



  13. Cristina L. em 05/03/2007 - 17:40 escreveu:

    Mas será verdade mesmo???



  14. TioSolid em 05/03/2007 - 19:33 escreveu:

    parei na metade.. mais o jeito que o cara coloca o “defeito” do celular eh muito bom!



  15. Sigil em 05/03/2007 - 22:44 escreveu:

    Ei, quem copiou meu texto aqui? o.O



  16. Dewes em 06/03/2007 - 00:05 escreveu:

    excelente juíz! Muito bom ter alguem fazendo algo decente nesse país! Se todos fossem assim o Brasil iria pra frente.



  17. Fabio em 06/03/2007 - 09:56 escreveu:

    Tirando o preconceito a profissão de Marceneiro, (quero ver um advogado juiz ou quem quer que seja dessa área sem habilidade manual fazer uma cozinha planejada ou até mesmo uma mesa com cadeiras, na unha) mas como tantas outras afinal quem entende aquelas porcarias todas que só servem para os advogados terem empregos de tradutores? um texto que poderia ser lido e entendido facilmente tem que ser relido e analisado.

    Já aconteceu isso com as bulas de remédios,
    aposto que algum juiz tomou alguma porcaria errada quando se arranhou no engate do carro.

    Já pensou que ótimo se virar lei?
    Parabéns a sentença que conversa como gente



  18. Nando em 06/03/2007 - 10:23 escreveu:

    Seu Gregório malandrão… deixou o aparelho molhar e depois quando ele não funcionou mais entrou na justiça conseguindo uma indenização e um aparelho novo.
    Isso é o que acontece quando um juiz age por emoção e simpatia e deixa de lado a análise técnica. Dessa vez beneficiou o menos privilegiado, mas devemos lembrar que esses erros muitas vezes beneficiam o outro lado também, e só não traz benfícios pra quem tá certo.



  19. Insano® em 06/03/2007 - 13:11 escreveu:

    É impressionante.

    Poderiam ter outros passageiros naquele…

    http://tinyurl.com/yn3ct4
    ou
    http://tinyurl.com/ur3yj



  20. Sigil em 06/03/2007 - 16:38 escreveu:

    Não acho que tenha sido água, a assistência técnica teria notado. A água deixa vestígios que iam ser identificados facilmente. Seria mais provável se tivesse sido uma ida a praia, só não sei se tem praia lá em Coité(que realmente não tenho nem idéia de onde fica).



  21. Precisa falar difícil? » jlcarneiro.com em 06/03/2007 - 17:01 escreveu:

    [...] Vi, no Blog do Cardoso, um caso (Seu Gregório e o Juiz Porreta) que achei difícil de acreditar. [...]



  22. Chawca em 06/03/2007 - 17:13 escreveu:

    Simples, direto e objetivo,,,,quem dera a Justiça fosse assim,,,



  23. Slim Dogg em 06/03/2007 - 19:41 escreveu:

    Encheu tanta linguiça em algo que poderia ser dito (e entendido) em duas míseras linhas de texto.



  24. Dudu em 07/03/2007 - 10:07 escreveu:

    Como eu já vi ‘causos’ de aparelhos que oxidaram em menos de 2 meses só pelo suor do usuário (e, no caso, a operadora não especificava esse risco no manual e não havia capa p/ o aparelho à venda), bem feito pra Siemens!



  25. eliza miranda em 08/03/2007 - 04:18 escreveu:

    otima!!!! adorei essa do juiz!!!!



  26. Gerivaldo Alves Neiva em 10/03/2007 - 22:01 escreveu:

    Eu, o próprio, navegando por aí, encontrei vcs. que beleza! Obrigado pelos comentários, contra e a favor. Melhor que nada!
    Abraços.
    Gerivaldo



  27. Cobra em 10/03/2007 - 23:52 escreveu:

    Caro Dr. Gerivaldo,

    caso o senhor retorne por aqui, é excelente saber que nem tudo no judiciário brasileiro está perdido. Parabéns
    Ricardo Cobra



  28. Gerivaldo Alves Neiva em 11/03/2007 - 08:43 escreveu:

    Obrigado, Ricardo.
    Gerivaldo.



  29. Paulo G Muller em 11/03/2007 - 12:09 escreveu:

    Dr. Gerivaldo;
    Parabéns pela clareza da sentença exarada.
    É reconfortador saber que temos pessoas como o senhor em nosso convívio.
    Felicidades e forte abraço,
    Müller



  30. Fernando Segura em 12/03/2007 - 08:53 escreveu:

    Não dá para descrever o prazer de ver uma sentença conterrânea redigida sem latinismos, aberta a ser compreendida por um homem do povo e, ainda, respeitando quaisquer filigramas processuais. Mais, com redação agradável. É o tipo de coisa que devemos ter para mostrar aos novatos na sala de aula.

    Parabéns ao MM Juiz Gerivaldo pela brilhante redação.

    Abraço,

    F. Segura



  31. Flávio José Pipolo de Amorim em 08/05/2007 - 12:05 escreveu:

    Ah… sentença reconfortadora… mas cabe apelação!



  32. Osmar Reinaldo Gregoldo em 18/07/2007 - 09:55 escreveu:

    Parabéns pela iniciativa de divulgar fatos tão benéficos para a sociedade, Carlos Cardoso.
    É pena que o juiz Gerivaldo não esteja em Brasília: estou com três aparelhos da SIEMENS A60 (de meus filhos) “sem condições de reparo”, segundo a Digital Service, autorizada da SIEMENS para a região. No momento, aguardo tentativa de acordo com a SIEMENS, proposta pelo PROCON/DF. Minha reclamação deu-se em 11/05/2007 e até agora NADA. Resta-me, a seguir, o juizado de pequenas causas. Será que terei a felicidade de encontrar um juiz que pense como o Digníssimo GERIVALDO ALVES NEIVA?
    Gregoldo